Rafael Tavares – Digital Miasma

por Vinícius Vidal
27/05/2010


Rafael Tavares é ilustrador e o responsável pelo trabalho do Digital Miasma, estúdio onde produz artwork para várias bandas e outros autorais, produz arte extrema e é um dos artistas mais atuantes no underground extremo nacional, atuando principalmente com bandas de Death e Black Metal como NervoChaos, Anarkhon, Ocultan, Amen Corner, Ophiolatry, entre outros.

A arte dele prima pela violencia, brutalidade, blasfêmia, sexo, raiva, ódio entre outros temas do segmento.

Conheça abaixo um pouco mais no bate papo que fiz com ele no começo de Maio.


Baron’s Hell) Fala Rafael, tudo bom? Primeiro agradeço a sua participação. Então, pra começar, a quanto tempo você faz o tipo de trabalho que vem fazendo agora?

Rafael: E aí Vinícius, por aqui tudo ok. Bom, eu já trabalho com ilustração desde 2001, mas comecei a produzir material pra música extrema somente em meados de 2004.

Baron’s Hell) Como começou isso? Imagino que você já desenvolvia alguns trabalhos até chegar à primeira capa, logo, etc.

Rafael: Eu sempre desenhei desde bem novo, e já trabalhava em um estúdio fazendo ilustrações para material editorial. Na época estava pra sair um split do Ophiolatry e Abhorrence pela Malignant Art, e eu me ofereci pra fazer a capa. O trabalho felizmente acabou tendo uma boa repercussão.

Baron’s Hell) Analisando teu trabalho como um mero amador observo que a maioria deles (se não for a maior) foram feitas digitalmente não? Qual é a sua técnica, ou, melhor dizendo, como você constrói a sua arte, desde sketchs até a finalização?

Rafael: Todos eles são feitos digitalmente. O processo e a técnica são os tradicionais de pintura mesmo, o que muda é somente a mídia, eu uso uma mesa digitalizadora e software para pintura digital. Primeiro eu faço um sketch em preto e branco, somente linhas de construção pra poder definir um layout, depois em um layer acima vou modelando com as cores mesmo.

Baron’s Hell) Aliás, finalização imagino que seja uma das etapas mais difíceis não? Na qual você sofre mais (se é que sofre)?

Rafael: Olha, a construção do layout leva menos tempo, mas é a hora a qual mais quebro a cabeça, pois ali eu já elaboro e tento visualizar todo o resultado final, e esse processo de criação tem vezes que é bem complicado. A pintura em si é de fato a parte mais trabalhosa e longa, algumas mais complexas como a Into the Autopsy do Anarkhon ou a Sodomiticvm do Queiron chegaram a ter mais de 40 horas de tempo gasto somente nessa etapa, daí vou fazendo aos poucos pra não ficar muito cansativo.

Baron’s Hell) Ainda falando em técnica, observo em seu portfólio 2 tipos de trabalho que você fez e divulgou, a maioria é como eu perguntei acima, mas tem um trabalho que fez, a Satanic Propaganda, não é divulgada no portfólio do Digital Miasma mas eu vi na galeria do Orkut, esses trabalhos diferem no formato da maioria dos seus trabalhos, porque isso? Você tem alguma preferência de estilos?

Rafael: Eu gosto muito de trabalhar com ilustrações mais realistas. Algumas dessas mais simples que vc citou eu faço somente por estudo de estilo às vezes, mas não é meu foco.

Baron’s Hell) Outro tipo de trabalho que você fez são desde as garotas estilo pin-up, sensuais mas com referências extremas, violentas, s&m, anti cristãs (que ficaram ótimas), etc até personagens de quadrinhos como Venom e o casal de Preacher, além de outras mais abstratas mas que se percebe seu estilo. Esses trabalhos são mais treino ou você fez para clientes mesmo? E qual é a sua motivação em relação a esses tipos de trabalho?

Rafael: Isso varia muito, alguns foram produzidos por encomenda sim, mas a maioria desses trabalhos são autorais mesmo, que faço vezes por estudo ou algo que tenho vontade de colocar no papel. No caso são temáticas que eu gosto e coisas que me atraem esteticamente, procuro sintetizar esses elementos numa leitura mais pessoal.

Baron’s Hell) E falando em processo, técnica, etc, como um ignorante no assunto (conheço bem pouco mesmo) imagino que você precisa de um bom equipamento para produzir esses trabalhos, com o que você trabalha?

Rafael: No momento estou com um Imac 3.06GHz de 21,5”, placa de vídeo ATI Radeon 4670, 8GB de RAM. E uma tablet Wacom modelo Bamboo com 1024 níveis de pressão.

Baron’s Hell) Eu já perguntei como você trabalha a sua arte, mas gostaria de saber qual é o processo que envolve o trabalho que você faz após uma solicitação de uma banda (por exemplo)? Existe um tipo de brainstorm que você faz com o cliente, ou te passam uma idéia básica e você desenvolve em cima? Como é?

Rafael: Normalmente eu pego as idéias, referências e temáticas propostas e  procuro encontrar uma solução gráfica para aquilo. Muitas me propõem conceitos prontos, mas que nem sempre funcionam visualmente, nesses casos tento chegar em um resultado que seja viável e ainda atenda à expectativa do cliente.

Baron’s Hell) Você até agora fez vários trabalhos para bandas de metal extremo não? Qual a sua ligação com o estilo? Você faria algum trabalho para bandas de estilos próximos que não os extremos?

Rafael: Eu gosto muito de Black/Death metal, as temáticas que gosto de trabalhar acredito que se encaixem mais nesses gêneros, não sei se caberia muito bem em outros estilos.

Baron’s Hell) Cara, em relação a influências na sua arte, desde quadrinhos, artistas, músicas, política, o que te influencia? Quais são suas referências?

Rafael: Olha, meu interesse começou por causa de quadrinhos, algo que sempre gostei desde antes de saber ler. Com o tempo fui indo atrás de coisas novas e tendo contato com outros tipos de trabalhos de artistas os quais me identifiquei mais, a maioria voltado a fine arts mais contemporâneas. Se eu for enumerar alguns eu poderia citar HR Giger, Simon Bisley, Wes Benscoter, JP Fournier, Par Olofsson, Vince Locke, Tim Bradstreet, etc.  Cinema de horror e música extrema também são coisas bem presentes no meu dia a dia, o que tem grande influência nos temas.

Baron’s Hell) Existe algum motivo, algo ou alguém para o qual você gostaria de criar?

Rafael: Tem muitas bandas que sou fã e gostaria sim de produzir algo para elas. Também tenho vontade de ilustrar alguma série de capas para quadrinhos estilo Vertigo ou coisa do gênero. Mas vamos ver, talvez vá rolando com o tempo, quem sabe.

Baron’s Hell) Sobre a cena ao qual você desenvolve teus trabalhos. Existe bastante demanda? Qual é a dificuldade para você fazer seu trabalho? Fazer esse tipo de trabalho paga suas contas ou esse não é seu foco?

Rafael: Aqui no Brasil a demanda para esse tipo de trabalho é bem limitada e pouco valorizada. Eu trabalho com ilustração publicitária e editorial também. Tenho um home-office aqui em SP onde produzo material para estúdios e agências, desde peças para publicidade impressa até pré produção e direção de arte pra comerciais de tv, e é isso que paga as minhas contas no momento.

Baron’s Hell) Eu fiz a pergunta acima porque vejo atualmente no cenário mundial artistas que fazem esse tipo de trabalho de maneira profissional (acompanho bastante os trabalhos do Dennis Dread, Mark Riddick e Mike Hrubovcak), tem seu estilo (assim como você) e estão sempre fazendo pra várias frentes, particularmente falando eu não tenho a menor idéia se eles vivem somente disso, mas acredito que seja boa parte de sua renda.

Rafael: Acontece que são culturas e posturas diferentes. Lá fora, principalmente na Europa, é dado muito mais valor às artes visuais. Tem uma grande demanda pra esses artistas do meio underground que se destacam pela qualidade dos trabalhos, e que produzem não só pra bandas, mas também pra livros publicaçòes, fine prints, e até grifes de roupas. E também quem consome está disposto a pagar muito bem por isso. Aqui no Brasil, de uma forma geral existe uma mentalidade que o ideal é o mais barato, e isso vale pra publicidade, pra tatuadores, quadrinistas etc. Eu gostaria muito é claro de poder viver somente do tipo de arte que gosto de produzir, o que não é uma realidade pro pais em que vivemos. Mas tenho intenções sim de em um futuro próximo, me arriscar lá fora.

Baron’s Hell) Falando sobre esse estilo que você faz, o que eu apelido pra mim de “Extreme Art” ou “Horror Art”, acompanho vários artistas como os clássicos H.R. Giger, Basil Gogo, Mad Marc Rude, Joe Petagno, etc, etc até os artistas atuais, contemporâneos que criam para as bandas, revistas e filmes atuais, eu não sei dizer, mas acho que tal arte tem uma importância enorme na cultura que vivemos e no qual fomos criados, mas mesmo assim vive a marginalidade, ou seja, tirando o pequeno circuito ao qual pertencem e dos nerds (como eu) que os consomem pouco se fala deles, tirando talvez Tim Burton que conseguiu levar sua arte gótica e até de aspectos de horror para o grande público, mídia e agora com uma apresentação no MoMA de Nova York. Lógico que eu abri bastante o leque do estilo, mas em sua opinião, o que acha de tal arte, cenário, sua importância, papel e representatividade?

Rafael: Acredito sim que tem um papel presente no cotidiano, se tratando de indivíduos ou grupos sociais específicos. Normalmente as pessoas vão agregando elementos no seu dia a dia os quais se identificam por afinidade estética ou conotação simbólica. E por se tratar de gostos mais restritos, é difícil mesmo que tenha destaque para o grande público, que na sua maioria opta por consumir aquilo que lhe é oferecido pela mídia popular. Isso se estende também à música, cinema, etc.

Baron’s Hell) Acima eu citei a importância disso num universo enorme, desde quadrinhos, bandas, punk, metal, crust, filmes, encenações, modelagem, games, etc, etc, mas é óbvio que dentro do metal (para o qual você cria) esse estilo é de uma importância enorme, desde a capa do Celtic Frost utilizando Giger, Derek Riggs com Maiden e a tantos outros existe uma certa referência que é óbvia e clichê mas que dificilmente deixará de ser, que são as referências anti-cristãs, blasfemas ou que se referem ao satanismo cada um com sua maneira, mas de certo modo “igual”. Não que eu desgoste, ao contrário, gosto muito, mas sinto como um admirador que são poucos quem consegue criar algo que vá além do impacto visual, mas uma originalidade impar, algo novo, diferente, porém, entretanto talvez isso não seja o objetivo dessa arte, enfim, o que você acha disso?

Rafael: Falar sobre originalidade é algo bem complexo, acredito que o que diferencia e destaca alguns artistas é no caso a autenticidade do trabalho do mesmo. Cada um de nós é um amálgama de referências as quais tivemos contato durante nossas vidas. Quando alguém se expressa artisticamente, o resultado é uma junção desses elementos vistos pela sua perspectiva pessoal com traços da sua personalidade, seus gostos etc. Se o indivíduo tem uma visão diferente e mais ampla, isso reflete no que ele produz.

Baron’s Hell) Sobre a cena extrema musical, particularmente a brasileira para o qual você criou seus trabalhos, qual a sua opinião sobre a mesma, o momento que vivemos desde eventos, lançamentos, espaço, mídia, etc.?

Rafael: Para ser sincero eu acompanho pouco a cena nacional atualmente. A maior parte do contato que tenho se limita à parte profissional e bandas de amigos, conhecidos etc. Pelo que vejo tem material com boa qualidade e também material que não diz muita coisa, como em qualquer outro lugar. Existem bandas que investem no que fazem, na produção, nas composições etc, e distros que se comprometem com isso também. Acredito que existe espaço e público sim pra quem é competente no que se propõe.

Baron’s Hell) Rafael, isso é tudo por enquanto man. Eu agradeço muito sua disponibilidade, atenção e interesse pra esse zine, você é a re-estréia de uma “seção” que eu gosto demais de destacar no Baron’S Hell. Valeu mesmo, fique a vontade.

Rafael: Eu que agradeço, qualquer coisa estamos aí. Para quem quiser conhecer melhor o meu trabalho, pode visitar o site http://www.digitalmiasma.net
Um abraço!


 

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